quarta-feira, 1 de abril de 2009

PAISAGEM ÚTIL

“Meu caro, você não precisa de óculos. É só melhorar a iluminação de casa que você vai ler bem.” Confesso que depois de aguardar uma hora pela consulta, minha expectativa era ouvir o contrário. “Obrigado, Doutor. Já estava até escolhendo a armação”, pensei.

O oftalmologista continuou: “Você já está entrando na idade dos óculos para leitura, mas é melhor esperar mais um pouco.” Argumentei que eu passo a maior parte do dia lendo, escrevendo ou na frente do computador, ou na frente da TV e que no sábado à noite tropecei, tudo bem que estava bêbado, eram quatro da manhã e não vi a calçada, mas... “Daqui a seis meses você volta.” O médico me interrompeu, olhou de soslaio, levantou, abriu a porta e saiu. A secretária pediu desculpas pela demora no atendimento.

Saí do consultório um pouco abestalhado, mas de olhos rútilos. Para exercitar minha visão de longo alcance, entrei na livraria mais próxima. Vislumbrar uma estante cheia de livros me encanta e acalma. Ainda mais naquele momento em que me sentia praticamente com olhar de raio-x. Comecei a examinar e tudo saltava aos olhos. Até mesmo os que nunca li e nem sei se um dia vou chegar a ler: Cees Noteboom, Somerset Maugham, Ford Maddox Ford, Junichiro Tanizaki, Pepetela e outros de nomes tão ou mais complicados.

Tendo em vista a quantidade de edições caprichadas e luxuosas, dessas que despertam no leitor a vontade quase irresistível de levar tudo que estiver ao alcance das mãos, optei por não abusar do olho grande. Se tem uma coisa que aprendi todos esses anos em sebos, livrarias e bibliotecas é que não se deve julgar um livro pela capa. Procurei exercitar o olhar neutro, deixei para trás todos aqueles exemplares admiráveis e saí de lá sem nada. Não podia pagar à vista.

Pegar um livro, abrir uma página, ler uma frase. Outro livro, ler um parágrafo. Mais um livro, agora um poema...Dizia Enrique Vila-Matas que dizia Walter Benjamin que em nosso tempo a única obra realmente dotada de sentido deveria ser uma colagem de citações, fragmentos, ecos de outras obras. Eu aceito essa colagem, acrescentando aqui e ali frases e idéias relativamente próprias.

Na volta para casa, “olhos abertos em vento”, contemplando as nuvens baixas e o arco que faz a praia de Copacabana procurei um sentido nas coisas a partir das leituras daquela tarde. Nenhum pássaro cantarolava sobre o espaço sobre o mar...

3 comentários:

Frida disse...

mmmmmmm... então vê se vc me vê nesse show... eu tava lá... rsrsrsrs

http://www.youtube.com/watch?v=zlT0ZGBmFCg

:)

ligia troy disse...

Ué.... pensei que depois da consulta vc fosse para uma loja de luminárias. Pelos vistos é disso que vc está precisando!

Adaílton Persegonha disse...

VAI EM CAIXA ALTA POR QUE É UMA ORDEM: LEIA SOMERSET I-M-E-D-I-A-T-A-M-E-N-T-E!!!