segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Os Shows da Minha Vida (à moda de Felipe Hirsch)



Depois de ler a coluna "Pop Cult 29" de 06/12/2010, como faço toda segunda-feira, o diretor teatral Felipe Hirsch responde a provocação de um amigo de infância sobre quais seriam os shows que marcaram a vida dele. Também me senti provocado e com vontade de elencar os meus preferidos.

Só uma exceção que, no meu caso, acho necessária. Show transmitido, pode? É porque a primeira vez que vi um show de verdade foi em Manaus, pela TV. Kiss ao vivo no Maracanã (ou Maracanãzinho, não lembro), 1982. Turnê do "Creatures of the Night". Com um tanque de guerra no palco que atirava "de verdade". A banda ainda tocava de máscara. Eu não conseguia falar de outra coisa durante meses. O som e as imagens não saiam da minha cabeça. Aluguei muita gente falando sobre o Gene Simmons cuspindo sangue, o solo de bateria do Eric Carr, a guitarra que expelia fumaça de Vinnie Vincent e Paul Stanley quebrando a guitarra logo depois de "Rock and Roll All Nite". Lembro que no domingo seguinte, no Fantástico, o Kiss apareceu pela primeira vez sem máscara, lançamento do "Lick it Up". Comprei o disco e, revoltado, desenhei as máscaras com caneta bic na cara dos integrantes. Depois me arrependi por ter estragado a capa. Mas percebi que a melhor fase do Kiss é o Kiss de máscara e logo me perdoei.

Ainda em Manaus, o primeiro show que assisti ao vivo na beira do palco foi no teatro do Hotel Tropical, 198?, com Leo Jaime, Kid Abelha e minha banda preferida na época, Ultraje a Rigor. Eu nunca tinha visto nada igual. Pessoas cantando, dançando, querendo tocar nos músicos. Lembro de ter ficado muito impressionado com o Carlinhos, o guitarrista e com o Roger. Como eles tocavam bem. Na época, "Inútil", era uma espécie de "Satisfaction". O baterista Leospa conseguia ser engraçado e simpático mesmo escondido. Achava que até então nada poderia ser igual ao "Nós Vamos Invadir Sua Praia". Até que veio o "Cabeça Dinossauro" dos Titãs e o "Selvagem?" dos Paralamas.

Depois do primeiro show ao vivo, eu não queria outra vida. Queria saber de tudo sobre o mundo do rock, metal e derivados. Não ligava muito para música brasileira, apesar de tocar muito em casa. Só abria exceção pra Roberto Carlos que não saía dos alto falantes de qualquer rádio que estivesse ligado em qualquer lugar da cidade. Mas eu curtia. O Rei emocionava de verdade.

Ainda falando de Manaus e "ao vivo pela TV", lembro do show do Iron Maiden no primeiro Rock in Rio. Aquilo sim, foi pesado. Marcou tanto que adquiri o passaporte eterno para o mundo do metal. Virei fã incondicional do Iron, comprei todos os dicos e imitava o Bruce Dickinson e o Dave Murray no espelho. Prometi a mim mesmo assistir ao vivo, pelo menos uma vez na vida ao show de qualquer banda, ou músico do meu interesse. E até que uma certa forma, venho cumprindo essa promessa.

Quando mudei para o Rio, a coisa mudou de figura. Pra melhor, quero dizer. Assisti ao primeiro show do Echo and the Bunnymen por aqui no canecão e segundo eles, foi o melhor show de toda a carreira da banda. Lembro que no mesmo mês, ou no mês seguinte, no mesmo Canecão, assisti Jesus And The Mary Chain dois dias seguidos com gente rolando pelo chão de tanta euforia.

Logo depois veio o PIL e achei que fosse dar merda com a plateia que não parava de xingar o John Lydon. No final do show ele mandou, fora do palco, mas ainda com o microfone: "Go home, silly people!" E não voltou pro bis. Fiquei com raiva e ao mesmo tempo feliz. Punk que é punk não respeita as convenções. Na época eu já enveredava pro punk rock, mas ainda era ligado ao Metal.

Qualquer show de qualquer banda de metal, trash-metal, hardcore e que fosse pesada e de vocais incompreensíveis, eu estava ou gostaria de estar. O "Caverna" era o lugar. Verão no Rio de Janeiro. Calor insuportável. Mas ali muita gente ficava de preto, correntes e tachinhas reluzindo ao sol. Eu queria vomitar e cuspir nos "New Wave". Depois eu comecei a gostar das bandas "new wave" e parei de ir naquela merda de lugar.

Uma banda, particularmente, me fez repensar tudo o que eu ouvia: "Felini". Enxergar o mundo através das composições de Thomas Pappon e Cadão Volpato era uma maneira de se tornar mais inteligente. Eu já gostava da banda e fiquei sabendo que eles fariam uma apresentação única no Teatro Ipanema. Lançamento do "Amor Louco". Foi uma experiência incrível ver aqueles caras de perto. Nessa noite conheci dois dos meus melhores amigos. E acho que conversamos até de manhã sobre o que tínhamos acabado de ver. Outra promessa que fiz a mim mesmo foi de sempre que o Felini viesse tocar aqui no Rio eu estaria na plateia. E cumpri. Fui a todos os shows dos caras aqui no Rio.

Esse tipo de promessa também me ocorreu com "Chico Science e a Nação Zumbi". Fui a todos os shows que eles fizeram por aqui. Até quando eles abriram pra Fernanda Abreu, na Barra, eu fui. Era só meia hora de show. E eu estava lá. Lembro que rolou um desrespeito da produção. Fecharam as cortinas e a banda ainda estava no palco. Acho que na época, ninguém entendia aquele som.

Quem teve a oportunidade de ver o Chico Science no palco sabe do que estou falando. Era realmente uma coisa inovadora. Quando ele entrava em cena e começava a dançar com o Toca Ogan era um espetáculo a parte. A banda, as músicas, o visual, era realmente uma nova proposta que faz eco até hoje. Não perdia um show sequer da galera do Recife. Mundo Livre ainda com Otto, Eddie, Mestre Ambrósio (assisti em êxtase, literalmente), Jorge Cabeleira, Cumadre Fulozinha, DJ Dolores...Eu queria mais era largar tudo e ir morar em Olinda, assistir a cena "Mangue Beat" ao vivo, de perto. Falar, conhecer, documentar e ficar amigo de todos aqueles artistas. Conheço muita gente boa que fez isso.

Lembro de quando rolava uns shows no Arpoador, tinha um palquinho ali e a galera se amontoava pra assistir: Johnny Alf, Moraes Moreira, Pepeu Gomes, Tim Maia, Jorge Ben... Nunca deu confusão, nunca rolou uma briga, nem repressão. Pelo menos perto de mim, pelo menos com os amigos que estavam comigo. Ainda bem.

Hoje em dia, ainda gosto de assistir shows ao vivo. Não ando muito empolgado com multidões. Aliás, nunca fui. Sempre gostei de shows mais intimistas, em lugares pequenos. Mas é claro que tinha que abrir uma exceção e ver R.E.M. e Neil Young no Rock in Rio, 3 ou 2, sei lá. O show do R.E.M. foi belíssimo. banda afiada e acho que ainda com a formação original. Michael Stipe tomava uma caipirinha atrás da outra e inspirado nele, passei a fazer o mesmo. No Neil Young tanta gente foi embora que dava pra chegar até bem perto do palco. A Guitarra dele parecia falar. Comigo.

Sonic Youth, Kraftwerk (2x), Radiohead, Strokes, Franz Ferdinand, Elomar, Xangai, Legião Urbana, Tulipa Ruiz, Dom Um Romão, Hermeto Paschoal, Mad Professor (a primeira vez, em SP), Ronei Jorge, Planet Hemp, Raimundos, Ramones, Yo La Tengo, Titãs, Plebe Rude tocando The Clash (hilário), Jards Macalé (10x), Jorge Mautner (50x), Luis Melodia (Trocentas x) Itamar Assumpção (3x, sendo uma delas ao vivo no bairro da Penha - SP - lugar onde o sujeito nasceu), The Cure e New Order (2x), são shows que merecem um post para cada. Talvez um dia eu escreva sobre todos esses que não foram só os que marcaram, mas também mudaram, de uma certa forma, minha vida.

Ainda quero ver, Tom Waits, Rumpilezz, PJ Harvey, Leonard Cohen, João Bosco, Burning Spear, The Fall, Roberto Carlos...

Um comentário:

maitê disse...

Adorei. Me fez voltar no tempo. O show do Iron Maiden que fui no Rock in Rio sem ao menos nunca ter ouvido antes, o show do Ultraje no Pq Lage (quando ainda era permitido), os shows no Canecao, como os da Blitz (quando ainda não haviam decidido que a UFRJ deveria ter de volta o terreno...)- como eu adora a Blitz.A descoberta dos titãs e os shows no Noites Cariocas como o do Sempre Livre. hehe. O inesquecível Circo Voador - hj nem sombra do que foi um dia, com pessoas penduradas nas estruturas junto a multidão e a fumaça local. Bem uma sucessão de boas lembranças. Obrigada por me fazer lembrar essas memórias tão doces que estavam guardadas em algum lugar.