domingo, 8 de março de 2009

ORIXÁS, SANTOS E DEMÔNIOS – III

Como é bem sabido, os ritmos intensos produzidos pelos tambores dentro dos terreiros há muito já invadiram ruas, cidades, corações e mentes. O domínio e o conhecimento de um vastíssimo repertório musical fazem do candomblé uma religião dançante por excelência. Tambor é ritmo, movimento, energia, axé.

Explica Reginaldo Prandi: “Para tudo se canta. Para acordar, para dormir. Para tomar banho, para comer. Para ir à rua e chegar em casa. Canta-se para colher as folhas e para cada folha uma cantiga específica. Canta-se para se benzer durante os trabalhos de limpeza ritual do corpo e da alma. Para invocar os ancestrais e afastar os maus espíritos. Para realizar os sacrifícios, para oferecer as comidas. Para a luz do dia e o escuro da noite; para que o amanhã volte sempre a acontecer. Para a terra, para a chuva e para o vento, canta-se para os caminhos que se abram e para que a vida seja menos dura. Canta-se também pelo simples ócio. Canta-se pela liberdade.”

Candomblé, samba, carnaval, capoeira, jongo, tambor de crioula, maracatu, tudo gira com um eixo comum: a música. E sempre em rodas, sempre em círculos, sempre em torno. Repetindo e inaugurando novos ciclos, mudanças, expansão de idéias.

É infindável a lista de músicas brasileiras que fazem referências aos orixás, encantados e outras entidades. Desta vez, vamos de Martinho da Vila, direto do clássico “Canta Canta Minha Gente”:


sexta-feira, 6 de março de 2009

ORIXÁS, SANTOS E DEMÔNIOS – II

O Rio de Janeiro sempre foi um importante centro de candomblé, apesar de sua identificação com o pólo “degenerado” dos cultos afro-brasileiros. Na literatura especializada, é a pátria da macumba, menos pura, menos tradicional, culto sincrético que deu origem à umbanda.

As primeiras informações sobre os cultos de origem africana no Rio de Janeiro estão reunidas no livro intitulado “As Religiões no Rio” (1904) de João Paulo Alberto Coelho Barreto, mais conhecido como João do Rio. Atraído pelo contraste entre a agitação da vida moderna e a sobrevivência de uma centena de cultos e religiões em oposição às crenças positivistas do início do século XX.

Naquela época, o Bairro da Saúde e a Praça Onze, no centro da cidade, concentravam um grande número de pessoas de origem africana. A “pequena África” como era conhecida a área, compreendia a Senador Eusébio, a Visconde de Itaúna e o Canal do Mangue. Toda essa área foi destruída com a construção da Avenida Presidente Vargas.

Com o aumento dos aluguéis no centro, os africanos e seus descendentes tiveram que se deslocar para o subúrbio, seguindo a linha do trem. Assim, foram formadas as primeiras casas de candomblé nas periferias do Rio.

Assim como João do Rio, outro escritor que atuou quase como um escavador da fisionomia do Rio de Janeiro foi Lima Barreto. No livro de contos “Histórias e Sonhos” ele mistura literatura, documentário, saber popular e sociologia das religiões:
“Inhaúma é ainda dos poucos lugares da cidade que conserva o seu primitivo nome caboclo, zombando dos esforços dos nossos dias para apagá-lo.
É um subúrbio de gente pobre, e o bonde que lá leva, atravessa umas ruas de largura desigual, que não se sabe, por que, ora são muito estreitas, ora muito largas, bordadas de casas e casitas. Fogem para lá, sobretudo para seus morros e escuros arredores, aqueles que ainda querem cultivar a Divindade como seus avós. (...) É o lugar das macumbas, das práticas de feitiçaria com que a teologia da polícia implica, pois não pode admitir nas nossas almas depósitos de crenças ancestrais.”

In Memorian, Barrosinho:

quinta-feira, 5 de março de 2009

ORIXÁS, SANTOS E DEMÔNIOS - I

Com a licença dos guerreiros protetores e tomando emprestado um título de Reginaldo Prandi, lanço aqui algumas opiniões, ilustrações, citações, rimas, provérbios, depoimentos, cantigas, poemas, transas, transes, e tranças sobre espiritualidade e as suas inúmeras manifestações na cultura pop.

Exu. Nas palavras de Jorge Amado: “Exu come tudo que a boca come, bebe cachaça, é um cavaleiro andante e um menino reinador. Gosta de balbúrdia, senhor dos caminhos, mensageiro dos deuses, correio dos orixás, um capeta. Por isso, sincretizaram-no com o Diabo; em verdade ele é apenas o orixá em movimento, amigo de um bafafá, de uma confusão mas no fundo, excelente pessoa. De certa maneira é o não onde existe o sim; o contra em meio ao favor; o intrépido e invencível.”

Sem Exu, os Orixás não podem ajudar seus fiéis. Exu transforma o conflito em harmonia. Tudo sabe, ouve e transmite. Garante a eternidade do povo e a continuidade do homem.

ORIKI


Escreveu certa vez Antônio Risério: “Tudo o que existe, aqui ou no outro mundo, pode ser premiado com a composição de um oriki. Orikis são emitidos para ninar crianças, celebrar deuses, receber visitas, batizados, noivados e funerais. Em suma, pontuam todos os momentos da existência social na Iorubalândia. Oriki. Música verbal. Melopéia. É bom enfatizar que ninguém emite um oriki de orixá em vão. Recitar ou cantar um oriki de Oxossi, por exemplo, é o mesmo que recitar um poema de Blake, ou cantar um blues de Billie Holiday.”

ORIKI de EXU:

Laroiê!
Rei da Astúcia.
Senhor dos Ardis.
Margem, Zona de Fronteira.
Ruas, Esquinas, Estradas.
Interstícios.
Personalidade Liminóide.
Inocência de criança e licença de ancião.
Protetor do Terreiro.
Porteiro e guardião.
Sempre invocado para o bom desenrolar da festa.
Madeira que cupim não rói.
Braço direito de Orunmilá.
Anda pelos campos, anda entre os ebós.
Atirando uma pedra hoje,
Mata um pássaro ontem.


“Se as portas da percepção estivessem limpas, tudo se mostraria ao homem tal como é, infinito.” – William Blake.

terça-feira, 3 de março de 2009

ULTRAWORLD: MEU MUNDO E NADA MAIS.



“The Orb´s Adventure Beyond the Ultraworld” em uma boa tradução à brasileira ficaria “As aventuras de Raul Seixas no país de Thor”. Feito “Segura o Sassarico da Nega” tradução de “Sense and Sensibility”, livro de Jane Austen e não sei se por sorte ou por castigo, perdi minha edição. Ao contrário, poderia provar que tudo que se fala, existe.

A fraca memória transtorna a lembrança de quando ouvi THE ORB pela primeira vez. Porém, acredito ter sido lá pelo meio dos anos 90, desesperadamente apaixonado.

THE ORB: Primeiro padrão estético a ser resgatado. Porque é preciso. É preciso resgatar a experiência ultra sensorial na música pop. É preciso resgatar a polifonia. É preciso resgatar a estranheza e a beleza. É preciso resgatar a diferença.

BICHOS, GRILOS

THE ORB e as primeiras raves: Na época, eu vagava o dia todo. À noite acabava num restaurante e curtia mais uma saudade.

Eu pensava: Será que estavam testando “ecstasy” nas pessoas? Certos caras não pareciam doidões, pareciam totalitaristas. Foi estranho, muito estranho...Enquanto isso, entre outras coisas, camarões boiavam na superfície da sopa...

As músicas do “Orb – Live 93”, entram ou parecem entrar em sintonia com os ciclos da natureza. As melodias confundem-se com o ambiente, acrescentando ainda mais sons estranhos e ao mesmo tempo familiares: Um galo que canta, motocicletas arrancando, velhos programas de rádio, percurssões, passarinhos, muriçocas, porções de vozes, sirenes, baixo e bateria.


Outras CAÔsiderações:
THE ORB E A MELOPÉIA


O escritor Ezra Pound (ABC da Literatura, 1934) chamou de “melopéia” o mundo criativo dos sons no texto poético.

Transubstanciação: Transformar água em vinho. Transformar-se, converter-se.

THE ORB é a transubstanciação da melopéia em dance music.



Tá ligado?

segunda-feira, 2 de março de 2009

CALÇADÃO



Aí eu fui andar em Copacabana. Algumas frases que peguei de orelhada...

O vendedor de amendoim e o polícia:


- O senhor viu só que pedaço de mulher? Imagine inteira.

- Haha.

Um cara suado sem camisa e outro suado de terno e gravata:

- Como tem veado em Copacabana...

- Menos concorrência pa nós, né não?

Jovem vagabundo e um médico:

- É preciso ser meio doido pra morar em Copacabana.

- Ah, é.

Uma mulher vestida de lantejoulas e um anão mal barbeado:

- O Rio de Janeiro é a cidade mais incrível do mundo para mim.

- Olha só como o sujeito ultrapassou aquele ônibus.

Um motorista e um astronauta:


- Fico pensando se um dos meus problemas é que nunca fui o melhor em nada.

- Eu quero política. Eu tenho esperanças.

Um poeta e uma entomologista:

- O carnaval ainda não acabou. Outro dia mesmo andei com um taxista que estava fantasiado de motorista.

- O senhor é engraçado.

Um professor de inglês e uma garçonete:

- Vida é analisar verbos e escovar os dentes.

- Socorro!

domingo, 1 de março de 2009

TRÊS POEMAS DE FRANCISCO ALVIM

LUZ

Em cima da cômoda
Uma lata, dois jarros, alguns objetos
Entre eles três antigas estampas
Na mesa duas toalhas dobradas
Uma verde, outra azul
Um lençol também dobrado livros chaveiro
Sob o braço esquerdo
Um caderno de capa preta
Em frente uma cama
Cuja cabeceira abriu-se numa grande fenda
Na parede alguns quadros

Um relógio, um copo

CARNAVAL

Sol

Esta água é um deserto

O mundo, uma fantasia

O mar, de olhos abertos
Engolindo-se azul

Qual o real da poesia?

SOFRIMENTO

Cara de tristeza na festa
Anda, vê um copo d´água pra teu pai

Francisco Alvim nasceu em 1938 em Araxá, Minas Gerais.